terça-feira, 8 de junho de 2010

A formação musical de Cartola (segunda parte)

*continuação daquele outro post

Ao se recuperar, ele voltou a exercer a profissão de pedreiro, que começara a praticar quando tinha 15 anos. Nas horas de folga trabalhava como compositor e violonista nos bares locais, ao lado do amigo Carlos Cachaça e Gradim. Pelo livro, as horas vagas eram muitas, pois Cartola largava tudo “para ir ficar na esquina, tomando umas e outras, tocando um violão ou fazendo um samba”. Nessa época, ele e os amigos se juntaram no Bloco dos Arengueiros para sair por aí e arranjar confusão, brigar mesmo, para competir com os blocos de outros morros.

Depois de certo tempo, cansado de toda aquela bagunça, Cartola fez o samba “Chega de Demanda” para juntar todos os blocos da Mangueira e dar um tempo nas confusões. Ele viu que era melhor fazer música que briga e se reuniu com os amigos, no dia 28 de abril de 1928, e fundou a Estação Primeira de Mangueira. O nome Estação Primeira foi porque a Mangueira era o primeiro morro depois da Central do Brasil que tinha samba. As escolas de samba foram fundamentais para a divulgação desse ritmo (cuja origem ainda é incerta, pois uns dizem que é carioca e outros, baiano) em todo o Brasil.

Nessa época o samba era cantado no fundo da casas, porque era tido como coisa de marginal, de malandro, e mesmo assim a polícia aparecia sempre aparecia para estragar a festa. Pouco tempo depois foi organizado concurso de samba com a Portela e a Estácio, que também tinham as suas agremiações de música. O samba logo ganhou a cidade e os músicos passaram a descer o morro para mostrar suas composições.

Cartola, orgulhoso, não descia. Se estavam interessados em suas músicas, que subissem o morro, dizia. Mário Reis então subiu e comprou Infeliz Sorte, que foi gravada não por ele, mas Francisco Alves, um dos maiores cantores populares brasileiros (famoso com Aquarela do Brasil). Depois disso, ele passou a vender mais músicas (Não faz amor, Tenho um novo amor, Divina Dama, Diz que foi o mal que fiz – todos em parceria com Francisco Alves), com a condição que fosse creditado como o compositor delas.
"Comecei a ficar conhecido lá embaixo, comecei a fazer negócio. Comigo e o Chico (Alves) sempre deu tudo certo. A confusão foi com Na Floresta, mas foi lá entre o Chico e o Sílvio Caldas. O Bucy Moreira tinha um samba que o Chico gostava da letra, mas não gostava da música. E a música do meu samba Na floresta encaixava direitinho na letra do Bucy, que se chamava Foi em sonho. Em cima dessa letra o Chico botou a música do meu Na Floresta. Aí minha letra ficou jogada fora. O Sílvio Caldas conhecia a letra e, um dia, resolveu botar uma música. E gravou. O Chico saltou, quis interditar o disco, coisa e tal. Mas o Sílvio convenceu o Chico de que ele só tinha comprado a melodia: 'Você deixou a letra de lado e o Cartola precisa ganhar dinheiro1'. Aí o Chico resolveu deixar pra lá".

O músico logo se tornou aproximou de Noel Rosa por causa de uma treta com José Gonçalves (ou Zé Com Fome) sobre a música Não Quero Mais. Em 1932, ele passou a dar uma canja no grupo Com que Roupa, criado por alguns sambistas em homenagem ao poeta da Vila. Ele tocava cavaquinho,  fazia o acompanhamento das músicas e era tido como um bom solista. Nessa época começaram a surgir várias escolas de samba, tanto em que em 1934 foi fundada a União Geral das Escolas de Samba (UGES). Para sobreviver, Cartola trabalhava com qualquer função que aparecia. Era pedreiro, peixeiro, sorveteiro e teve diversas outras profissões. Encarava qualquer expediente para ganhar dinheiro.

O ano de 1933 foi aquele que teve a gravação do primeiro sucesso de Cartola: Divina Dama, por Francisco Alves, na etiqueta Odeon. No mesmo ano Angenor formou com o compositor Wilson Batista e Oliveira da Cuíca (o primeiro cuiqueiro da era do rádio) um trio vocal-instrumental que chegou a excursionar a Barra do Piraí mas se desfez logos depois.

Angenor estava sempre estudando o violão, aprimorando a sua técnica. Seu parceiro, Carlos Cachaça, era um grande letrista e orador oficial da escola. Os dois juntos se complementavam, mas Cartola viu que precisava melhorar as suas letras e passou a estudar poesia. Leu Castro Alves, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Guerra Junqueiro (seu preferido, segundo a autora) e algumas coisas de Camões até se dar por satisfeito. Carlos Cachaça contava que Cartola era chato para parcerias musicais. Fora ele, Angenor só foi ter outros parceiros no fim da vida. “A gente compunha assim: a letra vinha com uma música. Um fazia e o outro aperfeiçoava. Era recíproco”, disse certa vez.

Em 1935, o samba passou a fazer oficialmente parte do Carnaval carioca, por decreto do então prefeito Pedro Ernesto Batista. De certa forma, esse foi o primeiro reconhecimento oficial do trabalho feito por Cartola e de outros sambistas. Sua vida no entanto não mudou. O músico continuou compondo e vivendo na penúria. Ele, que era mestre de harmonia da Mangueira e compunha para a escola de samba, chegou a penhorar as medalhas que ganhou em um concurso de samba para se manter.

* continua em um terceiro post

terça-feira, 4 de maio de 2010

mulheres de chico há um tempão atrás

Domingo último fui no Mulheres de Chico, tipo um bloco de carnaval que refaz as músicas do Chico Buarque em forma de axé e outros ritmos negros de uma forma lindaça. Dançante mesmo, de arriscar um passinho e mexer o corpo pra quem não é de arriscar passinhos e mexer o corpo.

Vou lá eu e uma amiga minha, Ju, e a amiga dela que aos poucos vai ficando minha também, Joana. A Ju tem o melhor sorriso do mundo, que me fez apaixonar e ficar atrás dela por uns anos, 2, acho, até contar numa noite na Lapa que era lésbica e me levar as lágrimas "não, to pensando em outra coisa" disse quando quis me confortar. Hahaha, caralho, talvez até estivesse. Engraçado que continuamos saindo juntos mas só de uns meses pra cá que realmente começamos a ficar amigos mesmo. Rola isso não é? Umas saídas por comodidade, por sair pros mesmos lugares e a gente nem conhece as pessoas direito. Conhecer e não conhecer. É um troço doido, tipo um carinho que vai se conquistando aos poucos, e vai se conquistando por toda a vida. Acho que até penso que quando tudo se for, vai sobrar eu e ela, mas torço com coração que apareça mais gente nessa equação.

Aí subi Santa, atrás dela, toquei o interfone, vi uma família subindo e uma menininha reclamando se demorava muito pra chegar em casa, porque não só de hippies e artistas vive Santa Teresa. Ela saiu de casa e nos abraçamos e fomos subindo, com ela falando do evento que é Santa de Portas Abertas, que, segundo ela, foi tucanado e virou só uma oportunidade de ganhar dinheiro. A Ju tem dessas, tem um lado meio indie e descobre umas coisas fodas que só ela consegue. Volta e meia ela surge com umas paradas fodas do nada, e tá completamente certa, é foda sim. Aí subimos e ela conta da noite anterior enquanto a gente espera a Joana, que tá sempre atrasada e bebemos a Itaipava de 1,50 da Van ali na frente. E ela pega mais mulher do que eu, porque geral pega mais mulher do que eu. Pra situar o ambiente imagina uma praça com bancos e mesas de pedra e uma galera bebendo, uns carros estacionados e duas pessoas, eu e ela bebendo e conversando sentados numa calçada esperando a noite começar. Ela conta a história dela, que não é de interesse de vocês, e a Joana chega, uma neguinha que não dá margem pra ninguém, esperta, que anda com a cabeça meio erguida (não totalmente pra não ser metida, mas não baixa pra ninguém) e um black responsa. Bonita, reparei nela direito pela primeira vez quando falou antes, num desses Cine-Cachaças da vida, "Sou negra mas sou limpa" (e foi nesse que acabei com o restante da cachaça dela, pro desespero da menina, porque é o que eu faço e realmente tenho que parar com essa vida).

Aí fomos lá e dançamos. Lugar lotado e não dá pra entender o que tão cantando, mas a gente dança, né? Porque do que a gente entende, dá pra dançar fácil. Encontramos Janaína, uma menina bonita, de olhos azuis, mas que tá sempre com pressa pra algum lugar, sempre com problema pra resolver, e que no dia anterior tinha me convidado pra ir na Feirinha de São Cristóvão mas teve que partir cedo por problemas não resolvidos (acho que homem). Tenho vontade de dizer pra ela se enlerdar uma pouco, acalmar, que pressa não leva a nada (mas talvez a certa seja ela, no final das contas). Peguei o Intermintências da Morte, do Saramago, com ela que e é mais do que disse que era "Um estudo da reação da sociedade quando a morte acaba". E as meninas apontam que ela tá sempre envolvida com esses homens meio, ahn, meio-homens, do tipo frouxo, acho, fico com vontade de apontar "eles a fazem rir" mas fico na minha.

Depois partimos e fomos atrás da boa e paramos na Fatinha, que tava rolando um samba e bebemos do lado de fora pra não pagar o couvert artístico e depois da primeira cerveja, que somada com o conhaque não-mencionado de antes, me faz mandar a real:
- A boa foi a gente ter ficado aqui.

E ficamos por ali, bebemos, e as coisas se animam. O samba que tá rolando no bar faz a gente dançar e tem duas meninas dançando ali longe, escondidas atrás de um carro e vou lá e puxo elas pra dançar perto.

(isso tava no meu e-mail faz um tempão, era pra eu continuar o texto mas agora não lembro mais da continuação dele... fica só isso então)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

fogo no camelódromo da central do Brasil



passei hoje lá e tavam demolindo o lugar. cheiro de queimado danado... lá era terra de ninguém mesmo, mas tinha vários produtos do dia-a-dia úteis pacas (tipo benjamins e outras paradas para eletroeletronicos que não encontrei nem no walmart. outra banca tinha vários acessórios pra cozinhas). algumas lojas eram bem organizadas, e esse camelódromo tinha mais diversidade que o da uruguaiana, que tem zilhões de bancas com cds piratas. tinha uma loja que vendia negresco mais caro do que no walmart, e ainda não davam nota fiscal. era de uns africanos, não sei de onde, só sei porque um dos caras que vendiam era um negão alto pra caralho com sotaque forte e tatuagem do brasil no braço. deve ser um desses africanos que moram no subúrbio.

com sorte o fogo não pegou no posto de gasolina que fica ali do lado. também não pegou um imóvel que vende gelo (deve ter evaporado tudo). vão demolir um dos hotéis chumbregas que tem na região, porque ele ficou bem danificado. esse hotéis eram só prostíbulos mesmo, com aquelas mulheres magras, vestidas com roupas de tamanho infantil, que ficavam na porta esperando os clientes. devia cobrar R$ 5 por programa, sei lá... hoje vindo pra cá um cara fodido ria: "vão demolir o meu hotel, onde fico com as minhas meninas". uma mulher, talvez dona de uma das bancas que tavam demolindo, tava inconsolável perto ali perto. sempre penso em andar com a câmera porque tem umas figuras incríveis...

o paes quer ampliar o terminal rodoviário dali e fazer uma espécie de mercadão de madureira ali perto, só que não acho que tenha lugar não...

(mais fotos aqui)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

domingo, 11 de abril de 2010

meditação tonglen

eis a meditação tonglen mencionada no post abaixo (retirada daqui):

Quando praticamos tonglen no momento em que nos deparamos com o sofrimento, apenas inspiramos e expiramos — inspiramos a dor, exalamos a amplidão a alívio. Quando praticamos tonglen como uma meditação formal, devemos seguir quatro passos:

1. Em primeiro lugar, descanse sua mente por alguns segundos em um estado de abertura ou quietude. Esse estágio é tradicionalmente chamado de lampejo do bodhichitta absoluto, ou de súbita abertura à amplidão e clareza fundamentais.

2. Em seguida, trabalhe com a textura. Inspire o calor, a escuridão e o peso — a sensação de claustrofobia — e expire serenidade, claridade e leveza — a sensação de frescor. Inspire profundamente, por todos os poros, e expire, irradie completamente, usando todos os poros de seu corpo. Faça isso até que essas sensações estejam sincronizadas com sua inspiração e expiração.

3. No passo seguinte, trabalhe uma situação pessoal — qualquer situação dolorosa que seja real para você. Tradicionalmente, começa-se praticando tonglen por alguém com quem nos preocupamos e que queremos ajudar. Entretanto, como já mencionei, quando seus próprios problemas o impedem de prosseguir, você pode realizar a prática pela dor que está sentindo e, simultaneamente, por todos aqueles que, como você, passam pelo mesmo tipo de sofrimento. Por exemplo, se está se sentindo incapaz, inspire essa sensação, por si mesmo e pelos outros que estão no mesmo barco, e exale confiança, sentimento de ser capaz ou de alívio, da forma que desejar.

4. Finalmente, torne esse processo mais abrangente. Se você está praticando tonglen por alguém que ama, estenda a prática a todos aqueles por quem nutre o mesmo sentimento. Se está praticando por alguém que viu na televisão ou na rua, faça o mesmo por todos os que estão em situação semelhante. Não se limite a uma única pessoa. Talvez já seja suficiente praticar por todos aqueles que, como você, estão dominados pela raiva, medo, ou por qualquer outro sentimento que também o aprisione. Entretanto, em todos esses casos, você pode ir além. Você pode praticar tonglen por aqueles que considera inimigos — aqueles que o ferem ou ferem alguém. Faça tonglen por eles, pense neles como dominados pela mesma confusão e impotência que vê em si mesmo e naqueles que ama. Inspire a dor deles, expire alívio.